Texto: Ana Paula Palazi – Inova Unicamp | Foto: Divulgação Enfuse
Moldado por sua proximidade com o centro administrativo e político do país, o ecossistema empreendedor de Brasília possui vocação para GovTechs, startups que desenvolvem soluções tecnológicas para o setor público. Contudo, e após atingir o posto de quarta cidade mais empreendedora do país, segundo o Índice de Cidades Empreendedoras (ICE) de 2023, a capital federal busca diversificar seu ecossistema de inovação.
Para conhecer mais sobre as estratégias que estão sendo aplicadas neste ecossistema, uma comitiva do programa Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy (Enfuse) realizou, em março, uma agenda de visitas a ambientes de inovação no Distrito Federal. O objetivo da missão foi mapear boas práticas de fomento ao empreendedorismo e à formação de deep techs. O grupo visitou 10 locais, incluindo parques tecnológicos, hubs de inovação e ministérios, além de entrevistar quatro startups brasilienses com soluções na área de energia.
O benchmarking nacional faz parte da primeira etapa do Enfuse, um projeto de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) entre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Petrobras, com o objetivo de estimular o empreendedorismo deep tech nas áreas de energia, óleo e gás. A comitiva foi composta pelos pesquisadores do Enfuse, que atuam na Agência de Inovação Inova Unicamp: Beatriz Hargrave Silva, supervisora de transferência de tecnologia, Rafael Lisboa Aguilar, especialista em qualidade e Ana Paula Palazi, analista de comunicação.
Parques e centros tecnológicos
A jornada teve início no Parque Tecnológico de Brasília (BIOTIC). O ambiente é ponto de convergência de diversos atores do ecossistema empreendedor local, como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), além de aceleradoras e laboratórios de pesquisa que atuam em proximidade com as startups. A equipe foi recebida por Izis Fabiana Lira, assessora da Diretoria de Negócios, Ciência, Tecnologia e Inovação do BIOTIC, além de Vitória Paula Araujo dos Santos e Thiago Levi Souza Rocha que atuam junto à Coordenação de Relações Institucionais e Comunicação (CORIC) da Biotic S.A., empresa pública que gerencia o Parque.

Na sequência, o grupo visitou a Universidade de Brasília (UnB), explorando o Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (CDT) e o Parque Científico e Tecnológico (PCTec) da UnB. O CDT, fundado em 1986, possui programas perenes, como o Prisma, que acompanham projetos empreendedores de alunos, docentes e técnicos da instituição, com o objetivo de transformar o conhecimento gerado na universidade em empresas de base tecnológica. Mais recentemente, a instituição lançou a Fábrica de Spin-offs, um programa de estímulo à transferência de tecnologias, por meio da criação de negócios tecnológicos, com apoio financeiro de bolsas de estímulo à inovação e recursos provenientes de emendas parlamentares.

No PCTec, o grupo conheceu a infraestrutura de apoio às startups e as Plataformas Tecnológicas, estruturas de pesquisa que funcionam de forma compartilhada. Esses espaços congregam laboratórios da universidade com startups e empresas privadas, permitindo o trabalho conjunto em temas estratégicos e o acesso a equipamentos de alto nível. A recepção na UnB foi conduzida pela equipe composta por: Renata Aquino da Silva, Decana de Pesquisa e Inovação; Guilherme Gelfoso, Diretor do CDT; Renato Borges, Diretor do PCTec; Emília de Oliveira Faria, responsável pela coordenação de eventos, prospecções e parcerias; e pelos os analistas Larisse Lima, Flávio Pereira, Bruno Goulart, Heris Coutinho, Gabriel Andrade, João Rodrigues e Kátia Fortini.

Hubs de inovação e fomento industrial
A agenda de visitas contemplou também o Hub de Inovação e Mercado e a Incubadora do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP). A instituição possui uma integração curricular, na qual o empreendedorismo está presente durante toda a jornada do aluno em disciplinas e eventos. A incubadora, fundada em 2024, por sua vez, funciona como um Venture Studio, atendendo 20 projetos desenvolvidos pelos alunos da instituição por ano. O grupo foi recebido por Victoria Barbieiro, coordenadora geral da graduação, Mathias Tessmann, coordenador executivo de graduação, mestrado e doutorado, Giuliana Marques e Abner Davi Chaves Rosa, da gestão da incubadora.

Na sequência, os pesquisadores do Enfuse exploraram o Espaço TEIA Caixa, um hub da Caixa Econômica Federal gerido por uma consultoria privada de tecnologia e inovação, para acelerar a transformação governamental via inovação aberta. O ambiente oferece infraestrutura gratuita e capacitação para startups selecionadas atuarem em mercados regulamentados. Com foco em resultados mensuráveis, o hub realizou 740 eventos em 2025, destacando-se pelos “pitches reversos”, onde o governo apresenta demandas reais para o desenvolvimento de soluções sob medida. Recebido por Lucas Alves, Head de Operações, o grupo conversou sobre sinergias com o setor de energia, óleo e gás.

Outro ambiente visitado foi o Sistema Fibra, que mantém o Hub da Indústria, onde a comitiva dialogou com representantes da Federação das Indústrias do Distrito Federal sobre o suporte a startups locais. Com foco transversal em eficiência energética e deep techs, o hub utiliza mecanismos de diagnóstico baseados em níveis de maturidade tecnológica para programas de aceleração. O diálogo foi estabelecido com o diretor Jamal Jorge Bittar e a gerente de inovação Luana Torres Lima, que detalharam parcerias e iniciativas, como o portal de desenvolvimento de fornecedores, para a promoção de oportunidades de negócio.

Conexões governamentais: MDIC, MCTI e Apex Brasil
A localização estratégica de Brasília permitiu aos pesquisadores do Enfuse um diálogo direto com os formuladores de macropolíticas públicas do país. No Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a equipe foi recebida por Leonardo Durans, diretor de desenvolvimento industrial, e Rogério Fabrício Glass, coordenador-geral da indústria de petróleo, gás e biocombustíveis.
No Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a recepção foi conduzida por Rafael Silva Menezes, Coordenador-Geral de Tecnologias Setoriais, e Tássia de Melo Arraes, coordenadora de inovação e energia. Na ocasião, os ministérios sinalizaram abertura para utilizar os resultados da pesquisa do Enfuse como subsídio técnico para futuras atualizações normativas nos setores de energia, óleo e gás, e transição energética.
Encerrando o ciclo de visitas, a comitiva esteve na ApexBrasil para conversar sobre internacionalização de empresas e a atração de capital estrangeiro. O grupo foi recebido por uma equipe multidisciplinar composta por Mariele Christ, da coordenadoria de indústria e serviços, Renata Gomes Machado, da coordenadoria de eventos, prospecções e parcerias, além de Livia Carbonell, Jayme Queiroz e Mateus Oliveira da área de investimentos. A agência destacou que o sucesso de programas como o Enfuse é vital para fortalecer a base do ecossistema nacional, preparando as empresas brasileiras de energia para competir e atrair investimentos no mercado global.

Startups de energia do DF
Durante a missão, a comitiva do Enfuse entrevistou representantes de quatro startups do ecossistema empreendedor brasilienses, que exemplificam o potencial tecnológico da região no setor de energia. Foram ouvidas a GoLedger, referência em soluções de blockchain para rastreabilidade de biometano e créditos de carbono; a Macofren, deep tech química que desenvolve kits para identificação de fraudes em combustíveis; a SolarBot, focada em robótica para a limpeza automatizada de painéis solares; e a Polus Brasil, especializada em IoT (Internet das Coisas) para eficiência e gestão inteligente de energia.
Em comum, as empresas apontaram como principal gargalo a curva de aprendizado necessária para lidar com a complexidade burocrática, especialmente na redação de patentes e na submissão de projetos a editais de fomento.
Sobre o Enfuse
O programa Enfuse: Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy é um acordo de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) firmado entre a Unicamp e a Petrobras que busca desenvolver metodologias replicáveis em todo o Brasil para formar empreendimentos e empreendedores que fortaleçam a cadeia de fornecimento do setor energético nacional.
O programa tem como objetivo formar empreendedores com potencial para criar soluções reais para o setor de energia, desde a indústria de óleo e gás até fontes renováveis como o hidrogênio.
O projeto é coordenado pelo Centro de Estudos de Energia e Petróleo (Cepetro) da Unicamp e conta com a parceria e envolvimento de pesquisadores da Agência de Inovação Inova Unicamp e do Laboratório de Gestão de Tecnologia e Inovação do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) ligado ao Instituto de Geociências (IG) da Unicamp e diversos institutos e faculdades da Unicamp.