Texto: Christian Marra – Enfuse | Fotos: Divulgação – Enfuse
O programa de viagens internacionais de benchmarking do projeto Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy (Enfuse) teve continuidade com uma etapa no ecossistema de inovação de cidades da região da Baviera, na Alemanha. Conduzido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o Enfuse é um projeto que busca estruturar metodologias de fomento a startups de base científica (deep techs) no Brasil, focadas sobretudo nos setores de óleo, gás e transição energética. O benchmarking é uma ferramenta que permite comparar processos, modelos de governança e práticas institucionais com ambientes que são referências globais de excelência.
Na Alemanha, as visitas técnicas ocorreram entre os dias 13 e 16 de julho e se concentraram na região metropolitana das cidades de Nuremberg e Erlangen, no estado da Baviera. A comitiva do Enfuse foi integrada pelos pesquisadores Gabriela Byzynski Soares, Pietro Pizão Gonzalez e Caroline Roxo.
Um dos objetivos do roteiro foi compreender como o ecossistema local articula parcerias público-privadas, atenua riscos para o desenvolvimento de deep techs e transfere conhecimento dos ambientes acadêmicos ao mercado. Ao longo da programação, com uma agenda de visitas a oito instituições e órgãos públicos da região, os pesquisadores analisaram desde modelos de cooperação descentralizada e programas governamentais de financiamento até estratégias de intraempreendedorismo em grandes multinacionais.
Energie Campus Nürnberg atua como ponte entre a academia e o setor industrial
Instalado em uma antiga indústria em Nuremberg, o Energie Campus Nürnberg (ECN) foi a primeira parada do roteiro. O ECN é uma rede de pesquisa corporativa dedicada ao desenvolvimento de tecnologias para energias renováveis, redes inteligentes e descarbonização. O campus funciona como um elo entre o meio acadêmico e o setor industrial, abrigando laboratórios compartilhados e grupos de pesquisa. Seu modelo de governança é sustentado por capitais privados e aportes do estado da Baviera, que alavancam a captação de recursos para projetos voltados à indústria.
Na visita, os representantes do ECN apresentaram entre outros destaques, o seu modelo de compartilhamento de infraestrutura física e de competências entre diferentes universidades, a divisão clara de funções – na qual o ECN foca na geração de propriedade intelectual e direciona a criação de startups para incubadoras parceiras –, sua filosofia de visar pesquisas com aplicação direta para a resolução de problemas das mais de 260 empresas associadas, entre outras.

NKubator adota modelo de incubação aberta e foco nas dores da indústria
Sediado no mesmo complexo do ECN, o NKubator é um centro de inovação em energia, sustentabilidade e green techs financiado pela prefeitura de Nuremberg. Ele adota um modelo de incubação regional aberta, apoiando projetos de alta tecnologia no setor de transição energética sustentável.
Em suas ações, o NKubator usa a metodologia de governança denominada “PartnerWerk”, um consórcio estruturado de parceiros corporativos que provê capital intelectual, suporte regulatório e conexões estratégicas diretamente para as empresas incubadas. Esse consórcio é integrado por grandes corporações, como KPMG, TÜV Rheinland e Siemens.
Siemens Campus fomenta o intraempreendedorismo e aceitação de risco
Localizado em Erlangen, na região metropolitana de Nuremberg, o Siemens Campus é um hub de inovação de 540 mil m² que abriga 17 mil funcionários e centraliza atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) em automação, digitalização e infraestrutura inteligente da empresa alemã. A visita a este complexo permitiu à equipe do Enfuse conhecer como uma corporação de grande porte fomenta o empreendedorismo interno e absorve tecnologias emergentes.
Para isso, o grupo destina um percentual de 8% do seu faturamento global para PD&I e ações de intraempreendedorismo, como o Siemens Intrapreneurs Bootcamp, um programa que envolve mentoria, acesso a investidores, parcerias e capacitação de funcionários para o desenvolvimento de tecnologias desde a prototipagem até a validação do modelo de negócio. Além disso, também é promovido o programa Smart Infrastructure XCell, voltado à aceleração de negócios baseados em inteligência artificial para redes elétricas. Outra filosofia da empresa alemã é a aceitação madura do risco corporativo, assumindo que a maioria dos projetos de inovação avançada não alcança escala nos dois primeiros anos.

Instituto Helmholtz conecta a pesquisa científica às demandas do setor elétrico
O Instituto Helmholtz de Erlangen-Nuremberg é uma instituição pública de pesquisa que lidera a iniciativa SolarTAP, plataforma voltada ao avanço de tecnologias fotovoltaicas de maturação intermediária (TRL 4 e 5), e tem como objetivo conectar laboratórios diretamente às demandas do setor elétrico e industrial.
Seu modelo de inovação é caracterizado pela diferenciação entre programas de elevação do nível de maturidade tecnológica (aumento do TRL) de um produto e programas tradicionais de incubação de negócios, sendo que o primeiro foca no desenvolvimento da tecnologia, com suporte de infraestrutura e capital humano especializado, e o segundo foca no desenvolvimento do negócio. Para isso, o Instituto adota, em seus processos, a metodologia stage-gate e fluxos digitais para acelerar o licenciamento de propriedade intelectual e a criação de deep techs. Outra ação é o estabelecimento de um relacionamento próximo à indústria, que inclui reuniões anuais para que elas apontem os rumos necessários para as pesquisas.
Universidade Friedrich-Alexander oferece suporte tripartite para a criação de spin-offs acadêmicas
Sediada em Erlangen-Nuremberg, a Universidade Friedrich-Alexander (FAU) destaca-se pelo ecossistema consolidado para a criação de spin-offs acadêmicas e startups. Seu suporte estrutura-se em um modelo tripartite: o FAU Empreendedorismo (Innovation Hub), que atua na fase de pré-incubação e tem duração de 6 meses a 1 ano, o FAU Spin-off Service, que oferece consultorias e validação do plano de negócios por até 5 anos, e o ZOLLHOF (tech incubator), responsável pela incubação tecnológica, a captação de capital semente e a inserção no mercado.
Normalmente as jornadas começam no TRL 3 e contam com ações de capacitação, como o workshop on-line Starting Business Ideas, e com a oferta de bolsas de desenvolvimento. Sua estratégia fundamenta-se nos pilares de equipe, universidade, capital e networking, com monitoramento por indicadores-chave de desempenho (KPIs) personalizados em cada etapa. Na FAU, a incubação de startups é realizada por meio de parcerias com hubs como o ZOLLHOF e o Medical Valley
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BAYLAT promove alianças de pesquisa e mobilidade acadêmica com a América Latina

Sediado na FAU, o Centro Universitário da Baviera para a América Latina (BAYLAT) funciona desde 2009 como uma instituição da universidade alemã, onde se encontra sua infraestrutura física e institucional, embora seja financiado pelo Ministério da Ciência e das Artes do Estado Livre da Baviera. A entidade atua como um hub para estabelecer conexões, parcerias e alianças de pesquisa acadêmica entre a Baviera e países latino-americanos, tendo o Brasil como um dos principais focos de atuação.
O modelo de apoio do BAYLAT viabiliza a jornada de desenvolvimento científico por meio de mecanismos específicos de financiamento e integração. O Centro gerencia o instrumento BayIntAn, que concede recursos para projetos conjuntos de pesquisa, e mantém a rede digital LAT in BAY para facilitar o intercâmbio entre cientistas bávaros e instituições da América Latina. Além disso, oferece bolsas de mobilidade para pesquisadores, financia workshops científicos e apoia a mobilidade acadêmica entre a Baviera e parceiros latino-americanos, contando ainda com contrato de parceria com professores da Unicamp.
Casos de deep techs: SCIPRIOS ilustra o ecossistema bávaro e NextHeat descarboniza processos industriais com suporte do programa EXIST
A SCIPRIOS é uma spin-off acadêmica, ou seja, uma empresa que nasceu para desenvolver uma tecnologia ou um conhecimento da universidade, oriunda da Friedrich-Alexander-Universität Erlangen-Nürnberg (FAU) e do Instituto Helmholtz, atualmente instalada no NKubator. A empresa desenvolve soluções de automação laboratorial e plataformas robóticas destinadas à pesquisa e ao desenvolvimento de materiais funcionais e de eletrônica impressa. Trata-se do caso de uma deep tech que transitou da bancada universitária para a comercialização internacional, contando hoje com 50 funcionários.
Também apoiada pelo NKubator, a NextHeat é uma spin-off acadêmica da Universidade de Ciências Aplicadas de Nuremberg (TH Nürnberg) voltada à descarbonização de sistemas de aquecimento e do calor gerado em processos industriais utilizando hidrogênio. A startup oferece soluções de transição energética para que indústrias possam substituir gradualmente o gás natural sem a necessidade de substituição completa dos equipamentos fabris.
A empresa foi fundada em 2023 por Fernando Reichert e Maximilian Falk, sendo o primeiro egresso da Unicamp, formado no curso de Física na turma de 1999. Tal como a SCIPRIOS, a deep tech também surgiu de um projeto de pesquisa acadêmica. Para sua constituição, a NextHeat contou com o suporte do programa federal EXIST para reduzir o risco inicial do negócio, contando com bolsas aos pesquisadores, suporte técnico mais próximo, assim como infraestrutura para a instalação dos equipamentos adquiridos pelo programa dentro da universidade.
Sobre o Enfuse
O programa Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy (Enfuse) é um acordo de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) conduzido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que busca desenvolver metodologias replicáveis em todo o Brasil para formar empreendimentos e empreendedores que fortaleçam a cadeia de fornecimento do setor energético nacional.
O programa tem como objetivo formar empreendedores com potencial para criar soluções reais para o setor de óleo, gás e energia.
O projeto é coordenado pelo Centro de Estudos de Energia e Petróleo (CEPETRO) da Unicamp e conta com a parceria e envolvimento de pesquisadores da Agência de Inovação Inova Unicamp, do Laboratório de Gestão de Tecnologia e Inovação do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) – ligado ao Instituto de Geociências (IG) da Unicamp – e de diversos institutos e faculdades da Unicamp.