Imersão por parques tecnológicos, aceleradoras, universidades e agências de fomento permitiu analisar ecossistemas maduros de incentivo ao desenvolvimento de deep techs.
Texto: Christian Marra – Enfuse | Fotos: Divulgação Enfuse
Entre os dias 30 de janeiro e 11 de fevereiro de 2026, uma comitiva de pesquisadores do projeto Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy (Enfuse) participou de uma missão internacional na Noruega e na Polônia. O objetivo da jornada foi uma avaliação detalhada das melhores práticas globais voltadas ao empreendedorismo de base científica, com foco nos setores de óleo, gás e energias renováveis. Essa conexão permitiu uma imersão nos métodos e experiências de ecossistemas maduros no incentivo ao desenvolvimento de deep techs.
A delegação do Enfuse foi integrada pelo coordenador do projeto, Marcelo Souza de Castro, e pelos pesquisadores Ruy Quadros, Ana Maria Frattini e Gabriela Byzynski Soares. Juntos, eles percorreram hubs tecnológicos em cidades como Oslo, Stavanger e Trondheim, na Noruega, além de Varsóvia e Katowice, na Polônia, estabelecendo diálogos diretos com universidades, agências de fomento e empresas do setor de energia. No total, a equipe foi recebida por 11 instituições norueguesas e quatro polonesas, coletando dados de escritórios de transferência de tecnologia (TTOs), incubadoras, parques científicos, aceleradoras e agências de financiamento.
“Este intercâmbio internacional nos permitiu identificar modelos de mitigação de riscos e cooperação entre governos, academia e indústria, que podem ser adaptados para fortalecer o ecossistema brasileiro de inovação. Os encontros forneceram um diagnóstico valioso sobre como o fomento à inovação, a formação de pessoal qualificado e uma cultura empreendedora podem contribuir para acelerar o desenvolvimento de soluções, produtos e novos negócios na área de Energia”, observa Castro.
Lições do modelo norueguês de fomento a deep techs
O roteiro começou na Noruega, na cidade de Oslo, onde a comitiva reuniu-se com representantes do Research Council of Norway (RCN), principal agência de financiamento científico e assessoria em Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) do país, e da Innovation Norway, organismo que mitiga riscos financeiros via “empréstimos de inovação” para projetos que possuem um caminho claro para o mercado, mas que são considerados de alto risco para bancos comerciais. As visitas incluíram, ainda, um encontro com gestores do Statkraft Ventures, que faz parte do capital de risco da estatal Statkraft, uma das líderes em energia renovável na Europa, para conhecer os processos e as boas práticas da empresa, sobretudo suas interações com deep techs. Também foi realizada uma visita à Equinor Fornebu, um centro de inovação da Equinor, empresa multinacional de energia sediada no país.

Na etapa seguinte, na cidade de Stavanger, o time visitou a University of Stavanger (UiS), em que foi possível conhecer a estratégia “Lab-to-Market” e o modelo de “laboratórios vivos”, nos quais pesquisadores de doutorado são frequentemente empregados por empresas parceiras para garantir a aplicação industrial. Esse processo é facilitado pela Validé, o escritório de transferência de tecnologia e incubadora da UiS, que gerencia a transferência de invenções com um modelo de partilha de receitas. Paralelamente, o cluster Energy Transition Norway (ETN) demonstrou como a inovação colaborativa, até mesmo entre empresas concorrentes, pode resolver gargalos técnicos em áreas como captura de carbono e hidrogênio.

Já em Trondheim, última escala na Noruega, o foco dos encontros foi a excelência técnica e a formação de talentos. Na Norwegian University of Science and Technology (NTNU), a delegação brasileira conheceu sua Escola de Empreendedorismo, que utiliza o lançamento de negócios reais como método pedagógico principal. A visita incluiu a Enova, agência que financia iniciativas de alto risco comercial, e o SINTEF, uma das maiores organizações de pesquisa independente da Europa, que reinveste seus excedentes em infraestrutura científica. Por fim, o encontro no Ocean Autonomy Cluster (OAC) encerrou o roteiro norueguês, ocasião em que foi apresentado o uso do fiorde de Trondheim como uma área de testes regulada para veículos autônomos subaquáticos e de superfície.
Estratégias polonesas de fomento à inovação e desenvolvimento de deep techs
A etapa na Polônia evidenciou um polo emergente de criação de propriedade intelectual e fomento a iniciativas que visam a inovação. A primeira reunião ocorreu no National Centre for Research and Development (NCBR), com o objetivo de conhecer suas melhores práticas e seu modelo de incentivo a deep techs nas áreas de óleo, gás e transição energética. A entidade é a principal engrenagem de fomento da região e opera o programa Ścieżka SMART, que financia todo o ciclo de inovação, desde a ideia até a prateleira. A equipe também visitou a Orlen, gigante do setor de energia que adota um modelo de inovação aberta por meio do acelerador Orlen Skylight, que prioriza projetos-piloto de startups voltadas à descarbonização industrial.

Nas cidades polonesas, o time do Enfuse aprofundou conhecimentos sobre seus modelos de infraestrutura de ponta para a transição energética. Na capital, Varsóvia, o Centro de Gestão de Inovação e Transferência de Tecnologia (CZiTT) da Universidade de Tecnologia de Varsóvia (WUT) destacou-se pelo seu modelo de incentivo direto aos cientistas, destinando 50% da receita de propriedade intelectual (PI) aos inventores, além de manter seu próprio fundo de Venture Capital (WUT IF) para investir em spin-offs acadêmicas, ou seja, negócios que possuem como atividade principal um conhecimento gerado na universidade . Já o Euro-Centrum Science and Technology Park, sediado em Katowice, apresentou um exemplo de reconversão industrial, transformando áreas degradadas em centros de eficiência energética que utilizam seus próprios edifícios como laboratórios de tecnologias e construções sustentáveis.

Conclusões e aprendizados da missão internacional
A missão internacional proporcionou ao Enfuse a compreensão de que uma arquitetura de financiamento que proteja o risco tecnológico pode ser decisiva para a evolução dos empreendimentos. Enquanto a Noruega oferece um modelo maduro de mitigação de riscos e parcerias em larga escala, a Polônia demonstra como incentivos financeiros diretos e agências de fomento ágeis podem acelerar a criação de novas empresas de base tecnológica. Esses aprendizados são relevantes para que o Enfuse aprimore seus programas de capacitação e apoio a empreendedores brasileiros.
Por fim, as viagens consolidaram a importância da integração entre o laboratório e o mercado. O contato com boas práticas, como os contratos de “First Buyer” da Statkraft e a educação engajada da NTNU, forneceu à equipe do Enfuse referências para propor novas pontes entre a academia e as indústrias de óleo e gás no Brasil. Esse conhecimento adquirido permite à equipe estar mais bem equipada para transformar o potencial científico nacional em ativos competitivos para a transição energética global.

Sobre o Enfuse
O programa Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy (Enfuse) é um acordo de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) firmado entre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Petrobras que busca desenvolver metodologias replicáveis em todo o Brasil para formar empreendimentos e empreendedores que fortaleçam a cadeia de fornecimento do setor energético nacional.
O programa tem como objetivo formar empreendedores com potencial para criar soluções reais para o setor de energia — desde a indústria de óleo e gás até fontes renováveis como o hidrogênio.
O projeto é coordenado pelo Centro de Estudos de Energia e Petróleo (Cepetro) da Unicamp e conta com a parceria e envolvimento de pesquisadores da Agência de Inovação Inova Unicamp e do Laboratório de Gestão de Tecnologia e Inovação do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) ligado ao Instituto de Geociências (IG) da Unicamp.