Pesquisadores do Enfuse analisam o panorama da inovação em Santa Catarina

Ao longo de quatro dias, a equipe percorreu Joinville, Jaraguá do Sul, Florianópolis e Palhoça, visitando sete ambientes de inovação e empreendedorismo do estado.

Texto: Ana Paula Palazi – Inova Unicamp | Fotos: Divulgação Enfuse

Uma comitiva do Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy ( Enfuse ), programa de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) coordenado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), realizou, em maio de 2026, uma série de visitas de benchmarking  por quatro municípios de Santa Catarina. 

O objetivo da missão foi mapear as práticas, programas e modelos de governança que sustentam o ecossistema de inovação e empreendedorismo do estado catarinense, com especial interesse em identificar referências replicáveis para o fortalecimento da cadeia de fornecimento do setor energético nacional.

A delegação foi composta pelos pesquisadores Mariana Zanatta Inglez, Ana Claudia Daidone, Rafael Aguilar e Ana Paula Palazi, todos vinculados à Agência de Inovação Inova Unicamp . Ao longo de quatro dias, a equipe percorreu Joinville, Jaraguá do Sul, Florianópolis e Palhoça, visitando sete ambientes de inovação e empreendedorismo do estado.

 

Governança compartilhada e inovação aberta

A primeira parada foi o Ágora Tech Park, parque tecnológico privado instalado dentro do Perini Business Park, em Joinville, a 173 quilômetros de Florianópolis. A comitiva foi recebida por Modesto Furtado, diretor técnico, e Vinicius Takeo, head de relacionamento com a comunidade. Com mais de 25 programas ativos, o Ágora reúne universidades, empresas de fomento, grandes corporações, startups e indústrias sob uma estrutura de governança compartilhada. 

Dentre os programas, o Ágora Experts transforma professores em multiplicadores da cultura empreendedora, atacando um gargalo recorrente nos ecossistemas regionais: a distância entre academia e mercado. Já o programa JEDI (Jornada de Empreendedorismo, Desenvolvimento e Inovação) apoia a estruturação de ideias inovadoras até a criação de empresas de impacto positivo, por meio de capacitações práticas, metodologias ágeis e mentorias.

O segundo destino foi Jaraguá do Sul, onde a comitiva visitou a sede da WEG, empresa brasileira de referência global na fabricação de equipamentos elétricos. Paulo Ubiratan Mehret da Silva, gerente de desenvolvimento de negócios, Carlos Eduardo Guarenti Martins, especialista em gestão da inovação, e Alexandre Barros, head de inovação aberta, receberam o grupo para um bate-papo sobre modelos de parceria e conexões para inovação.

Na conversa, foram apresentados alguns casos de P&D da empresa, seus modelos de contratos com parceiros externos e as iniciativas em curso para ampliar a inovação aberta (estratégia que busca integrar startups, universidades e institutos de pesquisa ao processo de desenvolvimento tecnológico da companhia). Os pesquisadores identificaram que a abertura a startups continua sendo um desafio para grandes empresas, especialmente aquelas que já possuem um setor de P&D estruturado e processos internos consolidados. Nesses casos, integrar agentes externos ao fluxo de inovação exige adaptações culturais e contratuais. 

 

Incubação de alto desempenho 

No terceiro dia, a comitiva chegou a Florianópolis e visitou o Centro Empresarial para Laboração de Tecnologias Avançadas (CELTA), onde Tony Chierighini, diretor-executivo, apresentou a trajetória da incubadora . O número que define a instituição é preciso: taxa de sobrevivência de 95% entre as startups associadas, incluindo deep techs, empresas fundadas sobre pesquisa científica de fronteira. O índice, acumulado ao longo de décadas de operação, reflete um processo rigoroso de seleção, acompanhamento e conexão com o mercado. A história do CELTA ganha dimensão quando se percebe que a WEG, visitada no dia anterior, foi uma das empresas que ali deram seus primeiros passos. O encontro evidenciou como incubadoras pioneiras formam a base sobre a qual os ecossistemas se constroem.

Na sequência, os pesquisadores foram à Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE), guiados por Matheus Pacheco, estagiário de marketing, que apresentou a estrutura. A associação ocupa um papel estratégico no ecossistema: organiza uma intensa agenda de eventos que aproxima startups, empresas consolidadas, investidores e demais atores do ambiente local e internacional, funcionando como uma plataforma de conexão para o ecossistema de Florianópolis e Santa Catarina. 

 

Inovação e empreendedorismo integrados ao urbanismo 

Ainda em Florianópolis, a agenda do terceiro dia contemplou três ambientes com naturezas distintas e funções complementares. O Sapiens Parque foi fundado para integrar ciência, tecnologia, arte e meio ambiente em um hub de desenvolvimento socioeconômico. Dentro do complexo, os pesquisadores visitaram o Laboratório de Energia Solar Fotovoltaica, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde puderam conhecer projetos de usinas solares e o laboratório de hidrogênio verde. Visitaram também o InPETU Hub, um centro de inovação, pesquisa, empreendedorismo e tecnologia também da UFSC construído com recursos públicos, que apoia empreendedores da pré-incubação até a co-criação e validação de tecnologias.

No complexo do Sapiens Parque também fica localizado o Instituto SENAI de Inovação em Sistemas Embarcados, que atua no desenvolvimento de protótipos avançados de hardware e software, funcionando como ponte entre demandas industriais e a capacidade técnica instalada. Durante a visita, a equipe conheceu ainda a Moa Ventures, gestora de venture building e fundos corporativos de inovação, que conecta capital estratégico a projetos em estágio inicial, completando, no mesmo complexo, uma cadeia que vai da pesquisa aplicada ao investimento. 

O quarto dia levou a comitiva a Palhoça, onde o Instituto de Apoio à Inovação, Ciência e Tecnologia (Inaitec) está inserido no bairro planejado Pedra Branca. O conceito do bairro, desenvolvido a partir de 2009 com suporte da Fundação CERTI, une moradia, trabalho e educação em um mesmo território com vocação tecnológica, pioneiro no modelo de live, work, study no Brasil. Tamiko Yamada, diretora de operações, e Lucas Teixeira, gerente de projetos, apresentaram a trajetória do instituto e o Programa Acelera Pedra Branca, iniciativa de ideação e aceleração aberta a startups e empreendedores de todo o Brasil. O Inaitec aponta uma tendência ainda incipiente no país: tratar a inovação como componente estrutural do planejamento urbano.

 

Da universidade ao mercado: pesquisa aplicada ao setor de óleo e gás  

Encerrando as visitas por Santa Catarina, a comitiva do Enfuse visitou o Laboratório de Metrologia e Automatização da UFSC, que atua com projetos na área de óleo e gás. O laboratório concentra suas atividades em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Durante a visita, o professor da UFSC e diretor do InPETU Hub, Armando Albertazzi Gonçalves, explicou sobre os projetos em andamento e novos modelos de aceleração técnico-científica para criação de deep techs a partir das pesquisas realizadas na universidade.

Os pesquisadores do Enfuse também conversaram com Mauro Eduardo Benedet, um dos empreendedores da startup Bawsf, que nasceu a partir de uma tecnologia desenvolvida no laboratório. Hoje, a empresa fornece soluções para inspeção e reparos não destrutivos em tubulações de óleo e gás usando shearografia (um método óptico para identificar defeitos internos ou deformações em materiais sem causar nenhum dano à peça). Benedet comentou sobre as motivações que o levaram a empreender e os desafios para a manutenção da deep tech.

 

Aprendizados e contribuições para o Enfuse

A imersão em Santa Catarina mostrou um ecossistema construído com tempo e intenção. Diferentemente de iniciativas pontuais, os ambientes visitados apresentaram programas com décadas de maturação, governança plural e mecanismos que distribuem papéis entre atores complementares (universidades, empresas, institutos de pesquisa, associações e capital privado).

Para o Enfuse, os principais aprendizados dizem respeito à importância de criar programas de acompanhamento rigoroso para startups em fase inicial, ao papel das grandes corporações como parceiras ativas de ecossistemas via inovação aberta, e à construção de conexões institucionais que mantenham o fluxo vivo entre atores. 

 

Sobre o Enfuse

O programa Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy (Enfuse) é um acordo de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) firmado entre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Petrobras que busca desenvolver metodologias replicáveis em todo o Brasil para formar empreendimentos e empreendedores que fortaleçam a cadeia de fornecimento do setor energético nacional. 

O programa tem como objetivo formar empreendedores com potencial para criar soluções reais para o setor de energia, óleo e gás. O projeto é coordenado pelo Centro de Estudos de Energia e Petróleo (CEPETRO) da Unicamp e conta com a parceria e envolvimento de pesquisadores da Agência de Inovação Inova Unicamp, do Laboratório de Gestão de Tecnologia e Inovação do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) – ligado ao Instituto de Geociências (IG) da Unicamp – e de diversos institutos e faculdades da Unicamp.

 

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Fotografia de seis pessoas posam em frente a um painel com a marca “Greentown Houston” e a frase sobre aceleração da transição para energia limpa. O grupo está em um auditório e veste roupas sociais e casuais, registrando uma visita ao hub de inovação e energia. Fim da descrição.

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