Texto: Christian Marra – Enfuse | Fotos: Divulgação Enfuse
A série de visitas de dos pesquisadores do Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy () projeto de pesquisa, desenvolvimento e inovação em parceria entre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Petrobras , cumpriu uma nova etapa entre os dias 21 de março e 4 de abril de 2026, com uma imersão nos ecossistemas de inovação dos Estados Unidos e do Canadá. O objetivo da missão foi realizar uma avaliação in loco das melhores práticas voltadas ao empreendedorismo de base científica, focando nos setores de óleo, gás e transição energética, e compreender como esses ecossistemas transformam pesquisas complexas em soluções comerciais viáveis.
A delegação do Enfuse foi composta pelos pesquisadores Rangel Arthur, Edmundo Inácio Júnior e Pedro Ivo Carvalho Gomes. Ao longo de pouco mais de duas semanas, a equipe percorreu cidades como Houston e Austin, no Texas, e Boston, em Massachusetts, além de Calgary, Toronto, Waterloo e Kitchener, no Canadá. A agenda foi preenchida com visitas a 17 instituições, entre universidades, de negócios, hubs de inovação, escritórios de transferência de tecnologia e de base tecnológica.
“Esta viagem representa mais um esforço do Enfuse visando compreender como países com tradição em inovação energética transformam pesquisa científica em negócios escaláveis. Os aprendizados adquiridos têm potencial de influir nas estratégias do projeto para fomentar o empreendedorismo no Brasil, especialmente em campos relacionados à transição para fontes renováveis de energia”, destaca o professor Arthur.
Laboratórios compartilhados e fundos semente: as lições da etapa americana
O roteiro de encontros começou pelo estado do Texas, principal polo petrolífero dos Estados Unidos, onde a cidade de Houston exerce um protagonismo. Nessa primeira parada, a equipe reuniu-se com gestores do Ion District, um distrito de inovação dirigido pela Rice University. Seu ecossistema integra coworkings, laboratórios, aceleradoras, mentorias e programas de capacitação, que conjuntamente criam um fluxo contínuo de desenvolvimento de ideias até a sua transformação em negócios escaláveis.

Em seguida, a equipe visitou o Greentown Labs Houston, maior de climate techs (startups que criam soluções para combater as alterações climáticas globais) da América do Norte. A organização sem fins lucrativos opera sob o modelo de zero participação acionária (zero equity), ou seja, não exige fatias das empresas incubadas, o que a posiciona como uma “zona neutra” no mercado. Esse ecossistema favorece que empresas concorrentes do setor de energia atuem juntas, sem conflitos de interesse, em desafios comuns de descarbonização, captura de carbono e hidrogênio.
Ainda em solo texano, a comitiva conheceu a startup Capwell, focada na mitigação de emissões de metano em poços de petróleo, cujo modelo de negócio pode servir como estudo de caso para as futuras startups do Enfuse ou como fornecedora de tecnologia para remediação ambiental em campos brasileiros. A visita seguinte foi ao ecossistema de inovação da Universidade do Texas (UT) em Austin, que abriga estruturas como o Texas Innovation Center (TxIC) e a Austin Technology Incubator (ATI). Um dos principais insights desse polo para o Enfuse foi a aplicação de fundos semente e programas de afiliados industriais para financiar pesquisas aplicadas na área de energia. Outro destaque foram seus métodos de modelagem de subsuperfície (simulações digitais e tridimensionais de subsolos), aplicações de robótica para inspeção de refinarias e tecnologias de captura de carbono.
A jornada nos Estados Unidos seguiu para Boston, onde os pesquisadores visitaram o MIT Proto Ventures e a aceleradora The Engine. O Proto Ventures possui um conceito de Venture Building, que atua no estágio zero da criação de startups resgatando pesquisas acadêmicas ociosas e utilizando PhDs, denominados Venture Builders, para transformá-las continuamente em novos negócios. O The Engine, por sua vez, destaca-se pela infraestrutura voltada a tecnologias classificadas como Tough Tech (ciência de fronteira de alto custo), oferecendo laboratórios compartilhados que permitem reduzir o CapEx (do inglês Capital Expenditure, ou investimento em bens de capital) de projetos complexos de hardware.

Finalizando a etapa nos Estados Unidos, a delegação conheceu a startup Osmoses, uma spin-out do MIT — termo que define empresas criadas de forma independente para comercializar uma tecnologia nascida em laboratórios universitários —, focada em membranas de polímeros para separação de gases industriais. O contato com a empresa gerou experiências positivas para o Enfuse, visto que este modelo tecnológico pode ter aplicação direta em plataformas offshore de pré-sal no Brasil. Por último, a visita ao Greentown Labs de Boston permitiu explorar suas práticas de de-risking (estratégias de mitigação de risco operacional) que absorvem o alto CapEx inicial de startups de hardware e favorecem seu desenvolvimento nas fases iniciais de crescimento.
Transição energética e hubs de inovação no Canadá
Cruzando a fronteira, a comitiva do Enfuse iniciou sua jornada canadense pela cidade de Calgary, na província de Alberta, um importante polo petrolífero do país. O primeiro encontro ocorreu com dirigentes do Innovate Calgary, o braço de transferência de tecnologia e incubação da Universidade de Calgary (UCalgary), instituição que se destaca na criação de startups universitárias e por gerir fundos filantrópicos específicos de energia, como o UCeed Energy Fund. Os pesquisadores também conheceram as estratégias e processos da ETC Foundation, que opera como um “research concierge”, conectando startups de energia a laboratórios e talentos da academia.
Ainda em Calgary, o grupo visitou o SAIT – Imperial Energy Innovation Centre, um centro de pesquisa aplicada com foco na agilidade mercantil. O SAIT pode originar parcerias com o Enfuse para suporte laboratorial a startups focadas em eficiência operacional e na redução da pegada de carbono.

Outro encontro foi realizado na Petroleum Technology Alliance Canada (PTAC), uma aliança que opera um modelo de fomento colaborativo neutro, gerindo fundos da indústria petrolífera para financiar pesquisas ambientais em universidades sem possuir instalações próprias. Esse modelo forneceu visões sobre redução de emissões de metano e tecnologias de conformidade regulatória, temas que se alinham aos interesses do setor energético brasileiro.
A última etapa da viagem cobriu Toronto e Waterloo, na província de Ontário. Em Toronto, o gigantesco MaRS Discovery District apresentou seu modelo de financiamento gratuito a programas por meio de sua divisão imobiliária e o uso da metodologia de aceleração Creative Destruction Labs. Na Toronto Metropolitan University (TMU), o Center for Urban Energy (CUE) mostrou como reduzir barreiras burocráticas para professores empreendedores utilizando contratos comerciais simplificados. Em Waterloo, as visitas ao Accelerator Centre e à Velocity (da Universidade de Waterloo) revelaram modelos de treinamento focados em vendas B2B e monetização, além de modelos de intercâmbio de práticas de comercialização de tecnologia acadêmica.
Aprendizados e benefícios para o Enfuse
A missão internacional nos Estados Unidos e no Canadá proporcionou ao Enfuse uma compreensão de que o sucesso do empreendedorismo de base científica nestes ambientes está diretamente atrelado a estratégias que absorvam o alto custo físico e financeiro inicial das startups de hardware tecnológico. Os modelos observados de infraestrutura compartilhada e a mentoria com foco em monetização podem servir como referências para o aprimoramento dos programas de apoio ao empreendedorismo e aos pesquisadores no Brasil.
Além disso, as viagens consolidaram redes internacionais de contatos e pontes de cooperação que abrem portas para futuros intercâmbios e testes de tecnologias estrangeiras em solo nacional.
Sobre o Enfuse
O programa Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy (Enfuse) é um acordo de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) firmado entre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Petrobras que busca desenvolver metodologias replicáveis em todo o Brasil para formar empreendimentos e empreendedores que fortaleçam a cadeia de fornecimento do setor energético nacional.
O programa tem como objetivo formar empreendedores com potencial para criar soluções reais para o setor de energia — desde a indústria de óleo e gás até fontes renováveis como o hidrogênio.
O projeto é coordenado pelo Centro de Estudos de Energia e Petróleo (Cepetro) da Unicamp e conta com a parceria e envolvimento de pesquisadores da Agência de Inovação Inova Unicamp e do Laboratório de Gestão de Tecnologia e Inovação do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) ligado ao Instituto de Geociências (IG) da Unicamp.