Enfuse mapeia ecossistemas de inovação da China e da Coreia do Sul

Delegação de pesquisadores visitou parques tecnológicos, universidades e institutos de pesquisa e agências de fomento a startups para entender como cada país vem transformando ciência em tecnologia e empreendimentos.

Texto: André Gobi – Enfuse | Fotos: Divulgação – Enfuse

Uma delegação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), representando o projeto Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy (Enfuse), percorreu a China e a Coreia do Sul entre os dias 16 e 24 de junho de 2026. A missão integrou a etapa de benchmarking internacional do Enfuse e visitou parques tecnológicos, universidades, institutos de pesquisa, agências de fomento a startups e incubadoras de empresas para entender como funcionam seus ecossistemas de inovação.

Conduzido pela Unicamp, o Enfuse é um programa de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) que visa desenvolver metodologias para formar empreendedores e estimular negócios de deep techs voltadas aos setores de óleo, gás e energia no Brasil.

A comitiva foi composta pelos pesquisadores do Programa, Marcelo Souza de Castro, professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp (FEM Unicamp) e coordenador do Enfuse, Edmundo Inácio Júnior, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp (FCA Unicamp), Luciana de Oliveira Silva, especialista em internacionalização na Agência de Inovação da Unicamp (Inova Unicamp) e André Gobi, analista de comunicação na Inova Unicamp

 

China, fomento e o poder da escala

Em Pequim e Xangai, a delegação visitou seis ambientes de inovação. Cada um mostrou uma peça diferente do ecossistema de inovação chinês, que combina parques tecnológicos nacionais, universidades com forte cultura empreendedora e fundos de investimentos, na maior parte dos casos, públicos.

O primeiro ambiente foi o HICOOL Industrial Park, em Pequim, que foi fundado em 2020 pela BOTA (Beijing Overseas Talents Association). O parque conta com canais de cooperação em 168 países e em apenas seis anos já gerou 17 unicórnios e 65,1 bilhões de Renminbi, que é a moeda oficial da China, em capital captado pelos vencedores da competição chamada HICOOL Global Entrepreneurs Competition, um programa anual de competição e aceleração internacional. 

Também em Pequim, o grupo visitou o Zhongguancun Science Park (Z-Park), o mais antigo parque de alta tecnologia da China, criado em 1988 e conhecido como o “Vale do Silício chinês”, que realiza investimento direto em tecnologias como 5G, inteligência artificial, big data, novos materiais e ciências da vida, com plataformas próprias para setores como robótica médica e circuitos integrados. Atualmente, o parque reúne 37 universidades, 96 institutos de pesquisa e mais de 140.000 empresas de tecnologia, gerando um pool de mais de dois milhões de talentos. 

 

Foto: Divulgação Enfuse

 

Na Universidade de Tsinghua, a comitiva conheceu seu sistema de inovação que integra plataformas de inovação consolidadas, como a XLife, um ecossistema dedicado a startups de ciências da vida e biotecnologia; e a XLab, que oferece laboratórios de pesquisa aplicada para prototipagem e validação tecnológica em engenharia, materiais e energia. A visita seguiu para o TusPark, ligado à Universidade de Tsinghua, que já incubou mais de 23 mil startups e mantém 80 empresas na bolsa de valores. O TusPark oferece um ambiente para que os pesquisadores aprendam a empreender sem abandonar a carreira acadêmica. 

Já em Xangai, a comitiva passou pelo Caohejinh High Tech Park, o mais antigo da cidade, e pelo Zizhu Hi-Tech Zone, que abriga um instituto de hidrogênio parceiro da empresa brasileira Órbita. O Zizhu chama atenção por operar sem depender de subsídio público, sendo um caso raro de instituição privada entre os parques científicos chineses. Uma das atuações estratégicas do parque é o cluster de nova energia e novos materiais, sendo diretamente relevante para a transição energética e o setor de O&G.  

As visitas na China contaram com apoio do Ministérios das Relações Exteriores (MRE) do Brasil e foram acompanhadas por Andressa Rangel, do Consulado do Brasil em Pequim, e por Penelope Santos, do Consulado do Brasil em Xangai.

 

O valor da especialização na Coreia do Sul

Durante o benchmarking na Coreia do Sul, a delegação passou por Seul, Seongnam e Daejeon entre 22 e 24 de junho. O país investe 5,2% do Produto Interno (PIB) em pesquisa e desenvolvimento, proporção superada apenas por Israel, e virou referência mundial em inovação em poucas décadas.

Na Sogang University, em Seul, a delegação conheceu como a pesquisa realizada na universidade se alinha às 12 tecnologias consideradas estratégicas pelo governo da Coreia, com destaque para dois projetos ligados à transição energética: o CGRC, que converte gases industriais em bioplásticos, e o Green Mineral, spin-off que usa microalgas para reciclar lítio de baterias de forma mais barata e menos poluente. 

 

Foto: Divulgação Enfuse

 

Ainda em Seul, na FuturePlay, gestora de fundos voltada a deep tech, foi verificado um modelo de atuação no qual o mais importante não é a maturidade da tecnologia, mas sim a capacidade do time de prever o sucesso da tecnologia, seguido pela identificação de um problema real e tecnicamente defensável, e a capacidade de atuar em mercados futuros em construção. Entre os casos de sucesso do fundo está a Innospace, primeira empresa privada sul-coreana de lançamento espacial, que realizou um lançamento no Centro Espacial de Alcântara, no Brasil, em 2023. 

Em Daejeon, no cluster de inovação Daedeok Innopolis, a delegação visitou o Korea Institute of Geoscience and Mineral Resources (KIGAM), instituto público que estuda recursos geológicos e transforma conhecimento científico em soluções para a indústria. Também em Daejeon, a delegação visitou o Korea Advanced Institute of Science and Technology (KAIST), universidade que incentiva uma cultura empreendedora sob o lema de que todo professor tem ou terá uma startup. No KAIST, os direitos de propriedade intelectual são divididos meio a meio para a universidade e para o pesquisador, formato que incentiva a comercialização das invenções.

A última parada foi o grupo conheceu o novo campus digital da Sogang University. Diferente do campus principal da Sogang University, em Seul, o campus digital foi criado para aproximar academia e indústria e formar talentos para a era da transformação por inteligência artificial. Por isso, a unidade fica no Pangyo Techno Valley, o maior cluster tecnológico da Coreia do Sul, conhecido como o “Vale do Silício coreano”. O polo reúne mais de 1.200 empresas e startups de tecnologia, de gigantes como Kakao, NHN e Krafton a  deep techs e empresas emergentes nas áreas de games, semicondutores e plataformas digitais. 

 

Foto: Divulgação Enfuse

 

As visitas na capital sul coreana foram acompanhadas por Rafael Rodrigues Alves e por Na Yeon Han, do setor de Ciência e Tecnologia do MRE em Seul.

 

Sobre o Enfuse

O programa Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy (Enfuse) é um acordo de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) conduzido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que busca desenvolver metodologias replicáveis em todo o Brasil para formar empreendimentos e empreendedores que fortaleçam a cadeia de fornecimento do setor energético nacional.

O projeto é coordenado pelo Center for Energy and Petroleum Studies (CEPETRO) da Unicamp e conta com a parceria e envolvimento de pesquisadores da Agência de Inovação Inova Unicamp, do Laboratório de Gestão de Tecnologia e Inovação do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) – ligado ao Instituto de Geociências (IG) da Unicamp – e de diversos institutos e faculdades da Unicamp.

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