Enfuse mapeia boas práticas do ecossistema de inovação chileno

Missão internacional reuniu experiências de universidades, aceleradoras, incubadoras e hubs de transferência tecnológica

Texto:  Isabele Scavassa – Enfuse | Fotos: Leonardo Scramin – Enfuse

Uma delegação do programa Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy (Enfuse) realizou uma missão de benchmarking no Chile, passando por locais estratégicos nas cidades de Santiago e Valparaíso. O objetivo foi mapear boas práticas de ecossistemas de inovação voltados ao empreendedorismo científico e tecnológico, com foco em modelos de apoio a deep techs, sobretudo nas áreas de energia, óleo e gás.

A delegação foi composta por Evelyn Albuquerque, Isabele Scavassa, Leonardo Scramin e Raphaela Martins, pesquisadores vinculados à Agência de Inovação da Universidade Estadual de Campinas (Inova Unicamp). Ao longo da missão, a equipe foi recebida por universidades, aceleradoras, incubadoras e hubs de transferência tecnológica, reunindo referências sobre governança, propriedade intelectual, incubação e formação empreendedora.

 

USACH e Innovo: formação empreendedora e criação de novos negócios

Para compreender como o empreendedorismo científico é incorporado à formação universitária, a delegação conheceu a Universidad de Santiago de Chile, a USACH, uma das principais universidades públicas do país, com cerca de 27 mil estudantes, 1.697 docentes e 6.845 servidores técnico-administrativos.

Representantes da Faculdade de Engenharia, entre eles a vice-decana de docência, Karina Barbosa, pesquisadora brasileira residente no Chile há quase 20 anos, apresentaram a reformulação curricular promovida pela faculdade em 2020. Desde então, conteúdos de empreendedorismo e inovação passaram a integrar todos os semestres dos cursos de engenharia. A instituição mantém ainda 18 programas voltados a empreendedorismo, incubação e aceleração, entre eles a plataforma SINAPSIS, que conecta universidade, empresas e governo; o Exponencial, dedicado a spin-offs de base científica; e o concurso estudantil Tu Idea, Nuestra Misión.

Essa formação encontra continuidade na Innovo, incubadora oficial da USACH vinculada à Direção de Inovação e Empreendedorismo, a DINEM, integrante da Vice-Reitoria de Pesquisa, Inovação e Criação. A estrutura funciona como uma espécie de laboratório de novos negócios. O programa Despega USACH representa a porta de entrada, com foco na pré-incubação de estudantes, pesquisadores e egressos que ainda estão transformando ideias em projetos.

A partir daí, os projetos mais maduros avançam para o Exponencial, que conduz os empreendimentos rumo à criação de Empresas de Base Científica e Tecnológica (EBCT). Os ciclos duram de seis a oito meses e não exigem participação societária, modelo que diferencia a Innovo de incubadoras generalistas ao priorizar negócios de maior complexidade tecnológica. A incubadora já capacitou mais de três mil empreendedores, mobilizou mais de quatro bilhões de pesos chilenos e mantém cerca de 40 projetos ativos. Entre os participantes do Despega USACH, 42% das vagas são ocupadas por mulheres.

 

Transferência de tecnologia e propriedade intelectual na PUC do Chile

Partindo da formação de empreendedores para a conexão entre pesquisa e mercado, a missão chegou ao Centro de Innovación UC Anacleto Angelini, da Pontificia Universidad Católica de Chile. Álvaro Ossa, diretor de Transferência e Desenvolvimento, e demais representantes do Centro apresentaram a Diretoria de Transferência e Desenvolvimento, estrutura que reúne equipes especializadas em propriedade intelectual, captação de recursos, negociação tecnológica e apoio ao empreendedorismo acadêmico.

A Universidade mantém centenas de tecnologias protegidas ou em processo de proteção e conta com o fundo Discovery, voltado ao financiamento de projetos em estágio inicial. O mecanismo permite iniciar a prospecção de parceiros antes mesmo do depósito da patente, aproximando a pesquisa de potenciais aplicações e mercados.

Outro destaque foi o programa From University to Industry, desenvolvido em parceria com a Universidade de Cambridge desde 2017 para formar gestores de inovação em diferentes países da América Latina, combinando atividades online e presenciais.

 

Startup Chile, Hub APTA e os diferentes caminhos para acelerar e licenciar tecnologias

Ao pesquisar modelos de fomento ao empreendedorismo, a delegação conheceu também a Startup Chile, programa de aceleração vinculado à Corporación de Fomento de la Producción (Corfo), considerada a primeira aceleradora pública de startups do mundo, criada em 2010.

Valentina Papic Ponce, diretora de expansão, apresentou um programa que já apoiou mais de três mil startups e seis mil empreendedores de diferentes países. O modelo é organizado em três trilhas, de acordo com o estágio de maturidade dos negócios. O Build oferece cerca de 16 mil dólares em quatro meses para transformar ideias em protótipos; o Ignite disponibiliza cerca de 33 mil dólares para empresas com produto minimamente viável; e o Growth destina cerca de 84 mil dólares, ao longo de oito meses, para startups em expansão internacional. Em todos os casos, o apoio é não dilutivo, preservando a participação societária dos fundadores.

 

Foto: Divulgação Inova Unicamp

 

A estrutura de apoio vai além do financiamento. O programa oferece coworking gratuito, mentorias e acesso a uma rede de mais de 270 mentores voluntários e mais de 160 investidores, além de serviços de softlanding para empreendedores estrangeiros. A iniciativa Female Founder Factor, por sua vez, reserva ao menos metade das vagas do Build a startups lideradas por mulheres.

Partindo para a área de transferência de tecnologias, a comitiva conheceu o Andes Pacific Technology Access (Hub APTA), política pública financiada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Conhecimento e Inovação e pela Agência Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (ANID). O hub reúne um portfólio de mais de 1.300 tecnologias de universidades parceiras, já fechou 61 contratos de licenciamento e apresenta forte descentralização: 66% das tecnologias comercializadas vêm de fora da região metropolitana de Santiago e 70% das tecnologias de maior impacto econômico têm liderança feminina.

Entre as iniciativas apresentadas, chamou a atenção da equipe brasileira a APTA2Go, primeira plataforma chilena de licenciamento tecnológico expresso, tecnologia em fase de testes. Outro mecanismo de interesse foi o termo de comparecimento especial, instrumento jurídico que agiliza contratos com universidades públicas sem comprometer a segurança jurídica do processo.

 

PUCV: empreendedorismo científico conectado ao ecossistema regional

A busca por referências sobre criação e desenvolvimento de EBCT levou a missão até Valparaíso, onde a Pontificia Universidad Católica de Valparaíso (PUCV) apresentou seu ecossistema de inovação.

A Universidade reúne o escritório de transferência e licenciamento, a incubadora tecnológica Chrysalis, a incubadora social Gen-E e a plataforma de formação empreendedora The Lift. Entre 2024 e 2025, o escritório de transferência fechou quatro licenças comerciais, gerou três novas deep techs e depositou nove pedidos de patente. A Chrysalis, por sua vez, apoiou mais de 90 projetos somente em 2024, entre incubação especializada e mentoria estruturada.

 

Foto: Divulgação Inova Unicamp

 

Para conhecer de perto como esse ecossistema se relaciona com os empreendedores, a delegação participou de uma roda de conversa com startups incubadas pela universidade e representantes do ecossistema regional. O encontro permitiu uma imersão no universo das spin-offs e das Empresas de Base Científica e Tecnológica fomentadas pela PUCV e por outros atores locais.

Os negócios apresentaram diferentes caminhos para transformar conhecimento científico em soluções. Entre as iniciativas, estavam o desenvolvimento de processos sustentáveis para reciclagem de resíduos eletrônicos, a caracterização e remediação de áreas contaminadas por mineração e a criação de equipamentos científicos de precisão como alternativas de menor custo aos produtos importados.

A conversa também trouxe para o centro do debate os desafios encontrados pelos empreendedores ao longo dessa trajetória, da captação de recursos aos contratos com grandes corporações. Os participantes defenderam programas de incubação mais especializados para setores de ciclo longo, como energia, mineração e biotecnologia.

A aproximação com a pesquisa aplicada continuou no Núcleo de Biotecnologia Curauma, outro local do ecossistema da PUCV que, ao ser visitado, apresentou ao grupo um modelo de desenvolvimento orientado por demandas diretas da indústria. 

Finalizando o roteiro no litoral chileno, a visita ao Parqtec V21, localizado no Distrito V21 teve um caráter prospectivo. Ainda em construção e dando os primeiros passos para sua implantação, o polo foi apresentado à comitiva a partir de sua proposta de reunir infraestrutura e serviços especializados para apoiar pesquisa, desenvolvimento e colaboração entre universidades, startups, pequenas e médias empresas, grandes corporações, centros de pesquisa, setor público e sociedade civil. A proposta é que o espaço funcione como uma ponte entre a academia e o mercado, além de contribuir para a atração de investimentos e para o desenvolvimento tecnológico da Região de Valparaíso.

Referências chilenas para o empreendedorismo 

A diversidade de modelos observados ao longo da missão permitiu identificar pontos de convergência entre as instituições visitadas. Um deles foi a integração do empreendedorismo ao currículo obrigatório, como ocorre na Faculdade de Engenharia da USACH desde 2020. A experiência chilena indica que essa abordagem contribui para formar um fluxo contínuo de projetos e consolidar uma cultura de empreendedorismo dentro da universidade, em contraste com um cenário em que o incentivo ainda depende, em boa parte, do engajamento individual de professores.

Também se destacou o papel das redes de ex-alunos empreendedores e da articulação entre universidades, incubadoras e agências de fomento, como a Corfo e a ANID.

De forma mais ampla, a missão mostrou que mudanças culturais — como o reconhecimento de pesquisadores e a abertura das grandes empresas para trabalhar com startups — são construídas ao longo de décadas e dependem da atuação coordenada de diferentes atores do ecossistema. 

Sobre o Enfuse

O programa Enfuse: Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy é um acordo de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) coordenado pela Unicamp, que busca desenvolver metodologias replicáveis em todo o Brasil para formar empreendimentos e empreendedores que fortaleçam a cadeia de fornecimento do setor energético nacional.

O programa tem como objetivo formar empreendedores com potencial para criar soluções reais para o setor de energia — desde a indústria de óleo e gás até fontes renováveis.

O Enfuse é coordenado pelo Centro de Estudos de Energia e Petróleo (Cepetro) da Unicamp e conta com a parceria e envolvimento de pesquisadores da Agência de Inovação Inova Unicamp, do Laboratório de Gestão de Tecnologia e Inovação do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) ligado ao Instituto de Geociências (IG) da Unicamp e de diversos institutos e faculdades da Unicamp.

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Da esq. para dir.: Ana Palazi, Iara Ferreira, Dr. Pedro Zacarias (Chefe do Setor de Ciência, Tecnologia e Inovação - Sectec - da Embaixada do Brasil na França), Rose Mary (assistente na Sectec), Prof. Edmundo e Beatriz Hargrave, em reunião antes do início das visitas de benchmarking no país.

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