Enfuse analisa modelos de fomento a deep techs da França e da Espanha

Imersão em ecossistemas de inovação para análise de benchmarking nos dois países revela estratégias de governança e métodos de financiamento de risco para viabilizar negócios no setor.

Texto: Christian Marra – Enfuse | Fotos: Ana Paula Palazi – Enfuse


Uma comitiva do projeto
Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy (Enfuse) concluiu uma missão internacional de benchmarking em ecossistemas de inovação e empreendedorismo na França e na Espanha. O objetivo foi mapear boas práticas de transferência de tecnologia, mecanismos de financiamento e modelos de governança público-privada, entre outras ações, com ênfase na promoção de deep techs, uma categoria de startups que exige pesquisa científica de ponta e longos ciclos de desenvolvimento.

A agenda incluiu encontros em cidades como Paris, Toulouse, Barcelona, Madrid e Tarragona. Nessas ocasiões, a delegação brasileira, composta pelo professor Edmundo Inácio Júnior e pelas pesquisadoras Iara Regina da Silva Ferreira, Beatriz Hargrave Gonçalves da Silva e Ana Paula Palazi, realizou um intercâmbio com gestores de incubadoras, hubs de inovação, agências de transferência de tecnologia, aceleradoras e centros de pesquisa de referência na Europa. A jornada ocorreu entre os dias 31 de maio e 12 de junho de 2026.

O Enfuse é um programa de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) conduzido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), focado em criar metodologias no Brasil para formar empreendedores e fomentar negócios de deep techs voltados aos setores de óleo, gás e energia.


Inovação e modelos de fomento da França 

O roteiro da missão começou pelo ecossistema de Paris. Na capital francesa, a equipe do Enfuse participou do Paris-Saclay Spring, evento anual de inovação e deep techs do ecossistema da região. Na ocasião, a delegação reuniu-se com representantes da Société d’Accélération du Transfert de Technologie (SATT) de Paris-Saclay, cluster local da rede de SATTs do país. Sua principal ação é acelerar o caminho de tecnologias nascidas em universidades e centros de pesquisa locais ao mercado. Para isso, a instituição mapeia invenções promissoras, realiza a proteção de propriedade intelectual – sem exigir copropriedade – e investe em cada projeto ao longo de dois anos. Os recursos não vão para a pesquisa básica nem para as startups, mas são repassados aos laboratórios que promovem a aceleração da tecnologia do estágio de prova de conceito (TRL 2) ao protótipo industrial (TRL 4/5).

Ainda em Paris, o grupo visitou o campus Station F, um amplo hub de startups do ecossistema francês, instalado em uma antiga estação ferroviária, que abriga cerca de mil startups e mais de 150 fundos de venture capital. Os pesquisadores conheceram o Incubateur HEC Paris, programa promovido pelo Instituto de Inovação e Empreendedorismo da École des Hautes Études Commerciales de Paris, que gerencia iniciativas de aceleração dentro do campus. Isso permitiu à equipe analisar modelos de suporte a empreendedores e a dinâmica de um ecossistema que reúne, no mesmo espaço físico, infraestrutura para novos negócios ganharem uma escala global. 

A agenda teve continuação em Toulouse, no sul da França, onde a comitiva reuniu-se com representantes da Toulouse Tech Transfer (TTT), a SATT responsável pela região da Occitânia. A TTT opera como uma empresa privada, porém com acionistas públicos (universidades, escolas de engenharia e institutos de pesquisa) e é dedicada a converter a produção científica regional em negócios de mercado. Em vez de atuar como um escritório tradicional, a instituição funciona como uma ponte de aceleração que protege a propriedade intelectual, financia provas de conceito em laboratórios e viabiliza o licenciamento para grandes corporações ou a criação de novas deep techs. Durante o encontro, os pesquisadores do Enfuse analisaram a governança do sistema francês e o uso de recursos públicos do programa estatal France 2030, que auxilia startups a transpor o “vale da morte” na transferência de tecnologia.

 

Equipe do Enfuse em visita à incubadora Nubbo, em Toulouse (França)
Equipe do Enfuse em visita à incubadora Nubbo, em Toulouse (França)


Ainda em Toulouse, a delegação do Enfuse visitou a incubadora regional
Nubbo e o centro de biotecnologia Toulouse White Biotechnology (TWB), duas estruturas do ecossistema da Occitânia. A Nubbo, sediada no complexo La Cité, atua como uma incubadora dos projetos vindos da TTT, apoiando-os em tarefas como modelagem de negócios, validações de mercado, captações de recursos, entre outras, tão logo as provas de conceito técnico sejam concluídas. O TWB, por sua vez, atua com ênfase na biotecnologia e seu método de escalonamento de pesquisas para o setor industrial funciona como um consórcio colaborativo: ele reúne mais de 50 parceiros e seu modelo de inovação conta com regras pré-definidas de propriedade intelectual e precificação, que dispensam acordos de confidencialidade para cada projeto, promovendo, dessa forma, a transição das tecnologias ao mercado.


Experiências e boas práticas do ecossistema de inovação espanhol 

Cruzando a fronteira, a delegação seguiu para a Espanha e iniciou os trabalhos em Barcelona. Na capital catalã, a primeira reunião ocorreu com representantes do The Collider, programa de venture building de deep techs da Mobile World Capital Foundation focado em transformar pesquisas científicas de universidades e centros de inovação espanhóis em spin-offs de impacto comercial. Entre suas estratégias de ação, destacam-se o resgate de patentes não comercializadas, sua metodologia de matching entre cientistas e executivos contratados, além de uma rigorosa regra de validação comercial: a exigência de ao menos três cartas de intenção de clientes reais para aprovar a incorporação de uma spin-off. O programa também oferece suporte completo de comunicação às deep techs, atuando na transposição da linguagem acadêmica para discursos comerciais, na estruturação da identidade corporativa das novas marcas e na sua projeção em grandes eventos e congressos internacionais de tecnologia.

 

Representantes do programa The Collider, de Barcelona (Espanha), receberam a equipe do Enfuse em sua sede.
Representantes do programa The Collider, de Barcelona (Espanha), receberam a equipe do Enfuse em sua sede.


Na sequência, a comitiva do Enfuse reuniu-se com uma equipe da
StartUB!, unidade de empreendedorismo e inovação da Universitat de Barcelona (UB). Neste encontro, foi apresentado o modelo de integração metodológica via Lean Startup e Design Thinking incorporado com créditos na grade acadêmica. Além disso, foi destacada a nova filosofia incorporada à unidade, que passou a focar mais nas soft skills das pessoas e em seu desenvolvimento pessoal, com a premissa, como citada em entrevista, de “apostar também no jóquei, e não apenas no cavalo”. Essa abordagem reconhece que, embora projetos possam falhar por oscilações de mercado, a qualificação dos profissionais pode capacitar os empreendedores a aproveitar o aprendizado e a gerenciar seus negócios com sucesso.

A missão avançou, em sua etapa final, a Tarragona, outra cidade da Catalunha, onde ocorreu uma reunião com representantes da Fundació URV, ligada à Universitat Rovira i Virgili. Localizada em um importante polo petroquímico da Europa, a URV concentra sua atuação na  administração de contratos de transferência tecnológica e projetos com a indústria. Para isso, sua fórmula para alcançar resultados positivos apoia-se em um marco jurídico com regras bem definidas: a participação acionária da Universidade no capital das spin-offs fica limitada a 10% pela lei espanhola. Além disso, há uma vedação do controle majoritário das startups por parte do pesquisador inventor. Essa legislação ajuda a mitigar conflitos de interesse, o que facilita a atração de investidores para as empresas apoiadas nesse ecossistema.

Finalizando a jornada de benchmarking, a equipe esteve em Madrid, onde conheceu programas de inovação aberta, estratégias de corporate venturing  (investimentos de grandes empresas em startups para acelerar a inovação e acessar novas tecnologias) e projetos de PD&I financiados por uma empresa do setor de energia. Os pesquisadores também analisaram iniciativas de colaboração em rede, como o hub de inovação All4Zero, voltado à descarbonização industrial, observando como a transição das refinarias tradicionais para plantas multiproduto incorpora tecnologias de captura de carbono para acelerar a validação comercial de deep techs no mercado de energia.

 

Sobre o Enfuse 

O programa Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy (Enfuse) é um acordo de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) conduzido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que busca desenvolver metodologias replicáveis em todo o Brasil para formar empreendimentos e empreendedores que fortaleçam a cadeia de fornecimento do setor energético nacional.

O programa tem como objetivo formar empreendedores com potencial para criar soluções reais para o setor de óleo, gás e energia.

O projeto é coordenado pelo Centro de Estudos de Energia e Petróleo (CEPETRO) da Unicamp e conta com a parceria e envolvimento de pesquisadores da Agência de Inovação Inova Unicamp, do Laboratório de Gestão de Tecnologia e Inovação do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) – ligado ao Instituto de Geociências (IG) da Unicamp – e de diversos institutos e faculdades da Unicamp.

 

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