Enfuse conhece modelos de apoio a deep techs na Inglaterra e Países Baixos

Missão internacional incluiu visitas ao Harwell Innovation Campus, à University College London e à TNO, referências em incubação, transferência de tecnologia e pesquisa aplicada.

Texto: Caroline Roxo – Inova Unicamp | Fotos: Divulgação – Enfuse

O programa de viagens internacionais de benchmarking do projeto Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy (Enfuse) teve uma nova etapa, desta vez na Inglaterra e nos Países Baixos. Conduzido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o Enfuse busca estruturar metodologias de fomento a startups de base científica (deep techs) no Brasil, com foco nos setores de óleo, gás e transição energética.

As visitas técnicas nesses países passaram por três instituições: o Harwell Innovation Campus (HIC), em Didcot, próximo a Oxford; a University College London (UCL), em Londres; e a Netherlands Organisation for Applied Scientific Research (TNO), em Rijswijk, na Holanda. A comitiva do Enfuse foi integrada pelos pesquisadores do projeto Gabriela Byzynski, Caroline Roxo e Pietro Pizão Gonzalez.

O roteiro permitiu conhecer como ambientes de inovação europeus organizam a incubação de startups, aproximam pesquisa e indústria e estruturam a transferência de tecnologia, combinando recursos públicos e privados para reduzir os riscos do desenvolvimento das deep techs.

 

Harwell Innovation Campus reúne pesquisa, startups e grandes empresas em clusters setoriais

A primeira parada foi o Harwell Innovation Campus, localizado em Didcot, a cerca de 25 km da Universidade de Oxford e a 90 km de Londres. Criado em 1946 em uma antiga pista de pouso da Royal Air Force, o campus nasceu dedicado à pesquisa em energia atômica e, a partir da década de 1950, ampliou seu escopo para áreas como biotecnologia, exploração espacial, computação e outras fontes de energia.

 

Foto: Divulgação Enfuse

 

Com cerca de 700 hectares, o campus se organiza em grupos multidisciplinares orientados por setores de aplicação. Cada um deles reúne grupos de pesquisa, empresas incumbentes e startups em edifícios dedicados, com escritórios, espaços de coworking e laboratórios. Atualmente, são cinco grupos: exploração espacial, saúde, computação quântica, defesa e segurança, e energia. Este último, o mais antigo, reúne mais de 1.400 pessoas ligadas a pouco mais de 80 organizações e abrange, além da energia nuclear, pesquisas e empresas voltadas a hidrogênio, amônia, novos materiais e sistemas de geração e armazenamento de energia.

A governança do campus é feita por uma joint venture entre o Science and Technology Facilities Council (STFC), órgão vinculado ao departamento britânico de ciência, inovação e tecnologia; a UK Atomic Energy Authority (UKAEA), ligada ao departamento de segurança energética e descarbonização; e a multinacional canadense do ramo imobiliário Brookfield. Enquanto os dois órgãos públicos instalam e operam a infraestrutura de pesquisa, a Brookfield é responsável pela expansão do campus. O espaço também mantém uma relação com universidades, como a Universidade de Oxford, a Universidade de Cambridge, a University College London, entre outras.

A incubação e a aceleração são conduzidas pelo STFC, por meio de uma trilha de empreendedorismo em cinco estágios. Ela começa na fase Business Idea, com apoio a pesquisadores em proteção de propriedade intelectual, constituição jurídica da empresa, acesso a fomento e primeiros contatos com a indústria. Em seguida, vêm as etapas New Businesses, com espaço compartilhado e serviços de laboratório; Early-Stage Startups, para equipes de 2 a 5 pessoas, com acesso a fomento, ao networking do cluster e à expertise técnica do STFC; SMEs, fase de aceleração para empresas de 5 a 30 pessoas; e, por fim, Joint Venture Tenants, quando a startup já se consolida como empresa e pode permanecer no campus como residente.

Hoje, o campus abriga 120 startups ativas e conta com quatro programas de fomento a spin-offs de base científica. A comitiva foi recebida por Molly McGoldrick, Graduate Energy Cluster Development Officer; Emma Southwell-Sander, Harwell Energy Tech Cluster Development Manager; Mark Burrows, Head of Business Incubation, STFC; e Thomas Kirk, Co-Founder and CEO da Ionech.

 

UCL Innovation and Enterprise aposta em incubação sem participação societária

A segunda visita do grupo foi na University College London (UCL), instituição fundada há 200 anos e classificada entre as 10 melhores universidades do mundo no QS World Rankings 2027. A UCL reúne cerca de 51 mil estudantes em mais de 400 cursos de graduação e 700 de pós-graduação. 

O apoio ao empreendedorismo acadêmico na universidade é conduzido pela UCL Innovation and Enterprise (UCLIE), unidade que atende estudantes, ex-alunos, funcionários e pequenas empresas por meio de programas de incubação e de venture building. As iniciativas envolvem mentoria, consultoria em negócios, conexão com investidores, apoio em patenteamento e licenciamento, acesso a fundos de capital semente e, no caso do venture building, a incorporação de profissionais com experiência de mercado aos projetos.

O principal programa de incubação é o Hatchery, com duração de dois anos e espaço físico próprio na região de King’s Cross, em Londres. Voltado a estudantes da UCL e a ex-alunos formados há até dois anos, o programa não exige participação societária e oferece workshops, mentorias, consultorias em áreas como vendas, propriedade intelectual, suporte jurídico e marketing, além de coworking, acesso a investidores e bolsas para a contratação de estagiários.

 

Foto: Divulgação Enfuse

 

Um destaque apresentado à equipe do Enfuse foi a integração entre a equipe de inovação e departamentos acadêmicos, como os de Administração e de Energia, para combinar treinamentos e mentorias. Como a UCL oferece graduação, pós-graduação e cursos aplicados de curta duração, essa articulação facilita a formação em empreendedorismo científico voltada ao setor de energia.

O grupo foi recebido por James Jennings, Senior Partnerships Manager – Public Sector; Magda David H., UCL School of Management; Malu A. C. Gatto, Deputy Director do UCL Institute of the Americas e Vice Dean; Mariana Trejo, Knowledge Exchange Manager; Gabriela Bazzo, Knowledge Exchange Communications and Reporting Officer; Priscila Carvalho, Lecturer em Direito Ambiental e Sustentabilidade no UCL Energy Institute; e pelos secretários da Embaixada do Brasil em Londres, André Felipe Miquelasi e Bruno Oliveira. 

 

TNO transforma pesquisa aplicada em novos negócios

A última etapa da missão foi no Países Baixos, com visita à unidade da Netherlands Organisation for Applied Scientific Research (TNO) em Rijswijk. Fundada em 1932, a TNO é uma organização pública sem fins lucrativos dedicada à pesquisa aplicada, com sede administrativa em Haia e uma rede de escritórios e laboratórios espalhados pelo país. Em 2024, a organização contou com 586 milhões de euros em recursos, dos quais 46% de origem pública, 27% de organizações privadas e 14% de contratos com organizações estrangeiras.

A TNO se divide em seis unidades de pesquisa: defesa e segurança; saúde e trabalho; indústria high-tech; tecnologias da informação; mobilidade e infraestrutura; e energia e novos materiais. A organização também abriga o Serviço Geológico dos Países Baixos, responsável por levantar dados sobre o subsolo, bacias hidrográficas, energia geotérmica, petróleo e gás natural, além de apoiar políticas públicas relacionadas.

 

Foto: Divulgação Enfuse

 

A instituição mantém cerca de 3.000 parceiros entre empresas, startups, universidades e órgãos públicos, dentro e fora da Holanda, em formatos que vão de contratos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) e parcerias público-privadas a programas de longa duração com universidades. A comitiva foi recebida por Fábio Rosas, Business Development & Key Account Manager. 

No apoio ao empreendedorismo de base científica, a TNO foca em tecnologias de maturidade intermediária, entre os níveis 3 e 6 da escala TRL (Technology Readiness Level, ou Nível de Maturidade Tecnológica). A escala mede de 1 a 9 o quanto uma tecnologia está próxima do mercado, e essa faixa vai da comprovação da ideia em laboratório ao teste de protótipos em condições reais. Em 2017, a organização criou a TNO Ventures, que licencia tecnologias da instituição para uso comercial e investe como sócia em startups e empresas em crescimento. Desde então, ajudou a criar 47 spin-offs acadêmicas, ou seja, empresas formadas para levar ao mercado tecnologias desenvolvidas na pesquisa.

 

Sobre o Enfuse

O programa Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy (Enfuse) é um acordo de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) conduzido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que busca desenvolver metodologias replicáveis em todo o Brasil para formar empreendimentos e empreendedores que fortaleçam a cadeia de fornecimento do setor energético nacional.

O projeto é coordenado pelo Centro de Estudos de Energia e Petróleo (CEPETRO) da Unicamp e conta com a parceria e envolvimento de pesquisadores da Agência de Inovação Inova Unicamp, do Laboratório de Gestão de Tecnologia e Inovação do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) – ligado ao Instituto de Geociências (IG) da Unicamp – e de diversos institutos e faculdades da Unicamp.

Programa gratuito vai selecionará pesquisadores, acadêmicos e startups de base tecnológica das áreas de óleo, gás e transição energética.

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Da esq. para a dir., Pietro Pizão Gonzalez, Gabriela Byzynski Soares e Caroline Roxo representaram o projeto Enfuse em visitas técnicas a centros de inovação na região da Baviera, na Alemanha.

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